quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

VULCÃO COTOPAXI – Pescoço da Lua



Muitas fotos que vi da cidade de Quito mostravam um vulcão nevado ao fundo. Suspiro. Acho que poucas imagens tem tanto poder sobre mim quanto um belo pico nevado.
Aprendi que o vulcão em questão é o Cotopaxi, um dos vulcões ativos mais altos do mundo, com 5.897 metros, localizado a apenas 60 km de Quito. Mas, desde que cheguei à cidade, não consegui vê-lo. Onde estava ele? Será que as fotos eram mentira? Será que eu estava olhando na direção errada? Afinal, pra onde olhar??!! Mesmo do mirador de Itchimbia não consegui avistá-lo, por mais que procurasse, o que causou certa frustração.
No hostal, outras hóspedes se juntaram e marcaram de ir à Feira Indígena de Otavalo na manhã seguinte, um sábado, e me convidaram. Na verdade, apesar de Otavalo estar em meus planos e sábado ser o dia da Feira (único sábado que eu passaria no Equador), minha prioridade absoluta era ir ao Cotopaxi. Decidi então que, caso fizesse bom tempo de manhã, eu iria para o vulcão; caso contrário, iria com as meninas.

Amanheceu de sol: Cotopaxi!

A Alícia rabiscou pra mim algumas instruções de como chegar lá por conta própria: tomar um táxi (ou o trole C4, caso eu quisesse uma aventura) até o Terminal Rodoviário Quitumbe (sul), tomar um ônibus para Latacunga e pedir ao motorista para me deixar na entrada do Parque Nacional Cotopaxi e, na entrada do parque, contratar um guia para me levar até o refúgio do vulcão. Tudo muito simples, muy fácil. Nada como a docilidade do viajante; sejamos francos, a gente quer ser convencido.

E lá fui eu de táxi até Quitumbe ($7), um terminal rodoviário claro e bonito. Os guichês de passagens ficam no andar superior e de longe vemos as placas “Latacunga”. Comprei meu bilhete ($1,50) para o ônibus que sairia dentro dos próximos 10 minutos. Desci para o embarque, passei a roleta e facilmente a gente vê os números das plataformas. Os ônibus não são dos melhores, mas seria menos de 1h até o parque e, vamos e venhamos, quem se importa? Sentei na poltrona da janela, para poder ver a tão aguardada Avenida dos Vulcões. Dentro de pouco tempo já pude ver o vulcão ao longe!
De vez em quando o ônibus para pra pegar passageiros e ambulantes. Vende-se de tudo, batatinha frita, espetinhos de salsicha desembrulhados (!), balas, pirulitos, cds, e teve um ambulante que foi um verdadeiro performer, contando piadas e fazendo gracinhas; e ele devia ser bom, pois o pessoal estava rindo bastante.
Viajar pela Avenida em ônibus pode não ser a melhor opção, uma vez que somente temos a visão do lado que escolhemos para sentar. Depois de um tempo de viagem, o Cotopaxi passou a fazer parte da paisagem, o que foi bem legal, apesar da tensão, pois o tempo foi fechando à medida que a manhã avançava.

Após uns 40 minutos, o cobrador fez sinal que estava chegando a hora de descer; graças a Deus, pois já estava me perguntando se ele tinha me esquecido. Desci na rodovia, sozinha, na beira da estrada mesmo. Não tem nenhuma estrutura, uma cobertinha com um banquinho, nada, o que me surpreendeu bastante, uma vez que o Cotopaxi é um dos destinos mais cotados por quem tem uns dias em Quito. Atravessei a rodovia e, na outra margem, havia umas caminhonetes estacionadas. Fiquei meio tensa, mas ao mesmo tempo tranquila, porque o que estava vendo batia exatamente com o que a Alícia havia descrito. Nessa hora, estar sozinha foi chato. Imaginei que as pessoas das caminhonetes eram os guias à disposição e fui me aproximando, sem graça. Um deles se adiantou pra falar comigo e eu perguntei pelo serviço. Eles de fato eram os guias e o preço era $40 dólares. Como foi o mesmo preço que a Alícia havia dito, aceitei no ato, entramos na caminhonete e fomos parque adentro. Ao passar pela portaria do parque assinamos um papel onde informamos nossos dados e quantos somos na caminhonete.

O parque é imenso e as estradas dentro dele estavam passando por obras de pavimentação para contenção de deslizamentos. E, lá em cima, o vulcão com o pico encoberto... O guia, Francisco, informou que para subirmos até o refúgio teríamos de dar a volta no vulcão e que do outro lado o pico estaria visível. Hum. Não apenas queremos ser convencidos - queremos crer.

Ao percorrermos o caminho, avistei um pontinho amarelo no vulcão. É o refúgio, disse Francisco. Duvidei silenciosamente de que chegaria mesmo lá, naquela reação bastante comum de achar que o que está visualmente tão distante é inalcançável. E fomos andando. Segundo Francisco, há cavalos selvagens pelo parque que, infelizmente, não vimos. Passamos por um lago onde um pessoal estava acampado. E fomos subindo. O tempo todo fui me observando pra ver se sentia algum incômodo ou dor de cabeça por causa da altitude. Nada.


O que é um pontinho amarelo na encosta de um vulcão?

O parque já fica a 3.500 metros. No estacionamento já estamos a 4.500 metros de altitude, faltando 300 metros para chegarmos até o refúgio. Descemos da caminhonete, tiramos algumas fotos e fomos subindo. Francisco me ensinou a inspirar pela boca, reter o ar nos pulmões e expirar pelo nariz, como forma de absorver mais ar. Outro conselho foi de subir devagar, sem forçar o passo, e observar o surgimento de dor de cabeça. Estava um pouco frio, portanto, coloquei um gorro e um cachecol. Fomos subindo. O chão é de areia fofa! Nunca havia imaginado... O esforço da subida nos faz sentir calor e tirei o cachecol.


Areia fofa

Chegar à metade do caminho merece comemoração e fotos!

O guia Francisco e eu, na metade do caminho

A segunda parte exige mais. Lá está o refúgio, amarelinho, uma casinha perfeita. Ele é totalmente indiferente ao nosso esforço, apenas está lá, amarelo. Caminho 5 passos e tenho de sentar. Respiro, admiro a paisagem, olho as outras pessoas subindo também. Tem um pai com uma menina nos ombros! Levanto e continuo, mais uns 8 passos; sento de novo. E assim vou.

 

Admirar a paisagem favorece a recuperação do fôlego

Francisco já me acompanhou o bastante e resolveu seguir em seu ritmo. Já chegou lá em cima, me olha de lá, dá uma volta pelo local. Passo a detestar aquela casinha amarela! Observo chocada uma turma de alpinistas que sobem preparados para tentarem o cume naquela madrugada (quem vai até o cume parte meia-noite, numa escalada de umas 5 a 6h). Tem doido pra tudo, penso. Respiro fundo mais uma vez e, numa arrancada final, chego ao refúgio. Francisco celebra por mim, oferece pra tirar minha foto na placa. Estamos a 4.810 metros de altitude! Levei 47 minutos do estacionamento até aquela placa, me mostra Francisco em seu relógio.



Outra dessa, só se for no Everest. E olhe lá...

Entramos no refúgio, divido meu lanche com Francisco, biscoitos e suco, dou uma volta pelo local que cheira a vapor de comida. Me sentindo mais descansada, subo umas pedras e dali vejo a neve.


Eu e a neve

Chega, né. Chamo Francisco para descermos e, coisa engraçada, o tempo vira de repente. Assim, em questão de minuto. O tempo fecha, começa um vento muito frio, incrivelmente frio, que rapidamente gela meus dedos. Descemos rapidamente, afundando os pés na areia, que agora colabora. Meus dedos estão gelados, começam a queimar. Flocos de neve começam a cair. Chegamos ao estacionamento, entro correndo na caminhonete, sento sobre as mãos, mas não adianta. Enrolo o cachecol nas mãos, nada. Até que Francisco liga o aquecimento do carro e me manda colocar as mãos nos bocais. Demora alguns minutos, mas, finalmente, meus dedos começam a esquentar. Depois começam a formigar. Até chegar de volta ao hostal, já estarão normais, mas foi o suficiente pra me assustar. E a virada do tempo na montanha é algo absurdo. Lembrei de ter lido sobre isso no “No ar rarefeito”, do Krakauer, mas é difícil entender até sentirmos, literalmente, na pele. Conselho: leve luvas.

Na volta o Francisco foi me mostrando outros vulcões, dos quais somente recordo o Illiniza. Agora era ir até a rodovia e pegar algum ônibus para Quitumbe. Qualquer um serve. Francisco me ajuda a conseguir parar um ônibus. Enquanto esperamos, vimos o trem que faz a Avenida dos Vulcões passando, apenas uma locomotiva pequena.

Cansei, viu.
Morrendo de pena dos alpinistas que passariam a noite no Cotopaxi, dormi feliz e satisfeita, pelo que havia feito, missão cumprida com louvor!, e pelo que me esperava na manhã seguinte -  Galápagos!


por C. Maria


Veja mais:


3 comentários:

  1. Que fria...( no melhor sentido) kkk Para asmáticos como eu, só de ler sobre essas escaladas, já fico sem ar...cadê minha bombinha? Mas depois desse, vc já pode começar a pensar no Everest.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Passados dois meses eu já até me animo a pensar em outra escalada (???!!!). Mas, na hora, eu fique horrorizada com a ideia de que alguem ia passar a noite lá pra acabar de subir! :-D

      Excluir
  2. WAGNER LYRA2/4/14 12:51 PM

    Morei em Quito uns 5 anos nos anos 75 a 81. Estudei no Colégio Francês de Quito e na Universidade Católica e logo em seguida tive que voltar ao Brasil. A partida foi horrível. Eu não queria voltar para o Brasil. Tinha amigos e bons amigos. Até hoje cultivos esses amigos, que os chamo de irmãos. Há 30 anos atrás, Quito era uma cidade praticamente pequena com seus diversos artesanatos. A praia mais próxima era ATACAMES, onde fiquei uma semana numa pousada maravilhosa feita de banbús. Agora em Junho estou voltando para reencontrar todos meus amigos. Não vejo a hora.

    ResponderExcluir