segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

ILHAS GALÁPAGOS – PARTE II

O BARCO

Andando, andando, o homem chegou ao porto, foi à doca, perguntou pelo capitão, e enquanto ele não chegava deitou-se a adivinhar qual seria, de quantos barcos ali estavam, o que iria ser o seu.
José Saramago

O ponto de partida para a escolha do barco foi relativamente simples no meu caso: o mais barato. Os cruzeiros são caros, portanto, comecei a procurar um barco mais econômico. Existem barcos para quase todos os bolsos, de categoria turista superior até luxo, com cabines mais amplas, camas ao invés de beliches, especializados em passageiros mais idosos, comida mais sofisticada e outros mimos. Entretanto, o luxo é relativo, porque em Galápagos o maior número de passageiros em um barco é 100 pessoas, ou seja, nada que lembre os navios ancorados em Port Everglades ou os que saem de Santos.

Depois de definir pela categoria mais econômica, procurei um roteiro legal. Minhas pesquisas me levaram a cruzeiros de 4 e 8 dias. Embora no início das pesquisas eu tenha namorado o cruzeiro de 4 dias (mais barato), após extensa pesquisa acabei escolhendo o de 8 dias, convencida de que esses são os que nos levam às ilhas mais distantes, ampliando o leque de espécies observadas e proporcionando a inigualável experiência de navegar – isso iria encarecer bastante as férias, mas, decidi investir, apesar da consciência de culpa...

Quanto ao roteiro, é difícil escolher quando não se tem a menor ideia de como fazê-lo ou por onde começar. Resolvi então partir dos animais que queria ver, sendo o mais importante o atobá-de-pé-azul (blue-footed-boobie, em inglês) e, de acordo com as opiniões de alguns fóruns, as ilhas do sul eram as melhores. Minha preferência passou a ser pelas ilhas do sul, Española e Floreana.

O que eu não sabia é que desde fevereiro/ 2012, o acesso às ilhas é alternado, uma vez que a regra agora é que um barco somente pode ancorar em uma ilha a cada 14 dias (antes eram 7 dias), ou seja, uma semana o barco navega pelas ilhas mais ao norte, na semana seguinte o barco vai para as ilhas do sul. Dessa forma, caso o visitante queira conhecer todas as ilhas possíveis, terá de ficar 2 semanas embarcado, ou “costurar” seu cruzeiro com passeios diários partindo da terra – mesmo assim, a ilha Española, por exemplo, só pode ser visitada por um cruzeiro, não há excursão de 1 dia pra lá.  
Assim, 1) os cruzeiros que me foram oferecidos começavam e terminavam aos domingos; e 2) a semana que eu tinha disponível pra fazê-lo caia na “semana norte”, ou seja, minha opção era ou norte ou nada. Simples assim.

Tendo decidido a categoria do barco, a duração do cruzeiro e o roteiro forçado goela abaixo, o último item para escolher meu barco foi acomodação. Como eu viajaria sozinha, já de antemão sabia que ia dividir uma cabine com alguém estranho. Entretanto, dentre os três barcos que me foram oferecidos, somente o Guantanamera garantia que eu dividiria cabine com outra mulher...

E assim, mais por eliminação que por escolha própria, meu barco passou a ser o Iate Guantanamera.


Meu barco, ancorado próximo à Ilha Isabela


A CAMINHO

E tu para que queres um barco, pode-se saber, foi o que o rei de facto perguntou (...),
Para ir à procura da ilha desconhecida, respondeu o homem.
José Saramago


Tendo a gentil Alícia, dona do Hostal Quito Cultural, agendado o táxi na véspera para 6h da manhã do domingo, meu único trabalho foi acordar a tempo e me arrumar.

Nada como trânsito tranquilo... E da janela do táxi, finalmente vi o Cotopaxi, perfeito e claro, ao longe.

Chegando ao aeroporto, o táxi mal toma a pista que direciona para embarques domésticos e já se pode ver uma porta à direita com uma placa amarela indicando “Controle de Bagagem/ Passageiros para Galápagos”. Foi assim:

1)      Entrar por essa porta; passar as malas pelo raio X; receber o formulário de conteúdo da bagagem; entrar no aeroporto.
2)      Ir para a sala imediatamente ao lado direito, onde pagamos a taxa de $10 (dez dólares) e recebemos outro formulário de controle de passageiros.
3)      Ir para o check in.
4)      Entrar para a sala de embarque e aguardar.

Sem dúvida, a única espera agradável em toda a viagem – e em muitos anos; estava me sentindo meio criança, aquela ansiedade gostosa, antecipando algo diferente que está por vir.


"Glorioso", foi como descrevi o dia em meu Diário de Viagem. O Cotopaxi compondo a paisagem, perfeito, como eu via nas fotos das revistas. Os alpinistas que vi no dia anterior, e que nessa madrugada conquistaram o cume, deviam estar se sentindo premiados! Bom pra eles, coitados. Eu tinha mais o que fazer!

Voo pontual e tranquilo da AeroGal. Parada de 1h em Guayaquil, para embarque e desembarque de passageiros e carregamento de suprimentos para as ilhas. O dia estava feio em Guayaquil; esperando ardentemente que 1000km mar adentro faça a diferença no tempo...

Olhos grudados na janela e máquina grudada na mão. Como uma apaixonada por fotos de janelinhas de avião, acompanhei atentamente cada km voado pela telinha individual que havia em meu assento, esperando pelo primeiro sinal de ilhas à vista. E a gostosa ansiedade infantil continua acesa!
Opa! Tempo meio encoberto, mas ali estão elas! Essa "bolinha" de terra me chamou a atenção e virou uma predileta à primeira vista. Aprendi mais tarde que a "bolinha" se chama Daphne Minor, local exclusivamente de mergulho, fora dos roteiros usuais.

por C. Maria



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VULCÃO COTOPAXI - Pescoço da Lua

ILHAS GALÁPAGOS 

domingo, 6 de janeiro de 2013

ILHAS GALÁPAGOS

ILHAS DAS TARTARUGAS

As ilhas Galápagos, que significa ilhas das tartarugas, ficam no Oceano Pacífico, a quase 1000 km da costa do Equador, diretamente sob a linha do equador. As ilhas foram formadas por processos vulcânicos e as maiores consistem do pico de um ou mais vulcões, que se elevam do solo do oceano. Parte do terreno é formado por lava das erupções. As diferentes correntes marítimas que convergem em Galápagos proporcionam a biodiversidade e a alta variedade de espécies endêmicas das ilhas. Espécies endêmicas são aquelas encontradas de forma natural exclusivamente em uma determinada região.  Devido aos processos ecológicos que ocorrem nas ilhas, com pouca interferência humana, são conhecidas como “laboratório natural de evolução” e mantém muito de sua biodiversidade original devido à colonização tardia (por volta dos 1930) e dos esforços de preservação empreendidos desde metade do século XX.

As ilhas Galápagos foram declaradas Patrimônio Mundial pela UNESCO em 1978, reconhecidas como Reserva Mundial da Biosfera pela UNESCO desde 1985, Santuário de Baleias desde 1990, é Parque Nacional e Reserva Marinha.

Fonte: www.galapagospark.org




Exibir mapa ampliado



DARWIN ENTRA NA (PRA) HISTÓRIA

Em 1830, aos 21 anos, o inglês Charles Robert Darwin embarcou como naturalista no navio HSM Beagle rumo à América do Sul, em uma missão de pesquisa que acabou durando cinco anos. Ao longo da expedição, Darwin foi observando, fazendo anotações e coletando espécies da flora e fauna dos locais por onde passaram. Um desses lugares foram as ilhas Galápagos, onde permaneceu por cerca de 5 semanas em 1835. Dentre outras observações, Darwin percebeu que os tentilhões em diferentes ilhas apresentavam características visíveis distintas, como a forma e o tamanho do bico, adaptado ao tipo de alimentação específica de cada ave.
Ao voltar para a Inglaterra e aprofundar os estudos do material coletado e suas deduções, Darwin elaborou o conceito de seleção natural, como sendo o mecanismo de variações favoráveis de acordo com o meio, legadas hereditariamente, e que tornam o indivíduo mais apto à sobrevivência. Através desse processo, uma espécie sofre variações tais que a distinguem do ancestral original, constituindo nova espécie.

As observações feitas em Galápagos foram decisivas para suas futuras conclusões e para o desenvolvimento dos princípios da seleção natural na evolução das espécies.

Em 1859 foi publicado o livro apresentando tal teoria, "A origem das espécies". E o resto é história. 


Crédito: Carlos Ruas, 2009   Fonte: www.umsabadoqualquer.com  
 

E EU COM ISSO?

“Um homem foi bater à porta do rei e disse-lhe, Dá-me um barco.”
José Saramago


Impossível pensar em Equador como destino das férias e não considerar Galápagos, ainda mais sabendo de sua importância e do gostinho especial que tem visitá-las. Não que seja “obrigatório” incluir as ilhas no roteiro, mesmo porque, como eu fui descobrir, as ilhas e o continente são “climas”completamente diferentes. E muita gente reclama do preço de ir a Galápagos, com razão. Na verdade, são férias dentro das férias. Você já gasta pra chegar até o país e depois tem que desembolsar outro tanto em passagem aérea pras ilhas, o que às vezes inviabiliza. E não vale a pena tudo isso pra ficar somente dois dias, há que se abrir pelo menos uma semana no roteiro, o que não é possível em muitos casos.

Mas esse não era o meu caso, então, às ilhas!

Minha ideia inicial era ir por conta própria e ficar em terra, visitando algumas ilhas em esquema de passeio de um dia. Após alguma busca na internet, escolhi a agência Julio Verne Travel www.julioverne-travel.com para me ajudar. É uma agência equatoriana, localizada em Riobamba, e meu contato foi o holandês Popkje van der Ploeg (sem a menor noção de como se pronuncia; email info@julioverne-travel.com). O atendimento do Popkje foi de primeira: atencioso, rápido nas respostas, eficiente nas informações. E ainda me forneceu seus telefones de contato para qualquer eventualidade, o que foi de imensa importância pra mim, uma vez que estaria sozinha. Graças a Deus, não precisei contatá-lo.

Depois de ler a opinião de outros viajantes em fóruns, acabei fechando um cruzeiro de 8 dias pelo arquipélago, convencida de que essa é a melhor forma de vivenciar o que Galápagos tem pra oferecer, justamente por permitir viajar pra ilhas mais distantes.

Certamente, esses formaram o segundo pacote de 8 dias mais memoráveis de minha vida (o primeiro foi NY/Detroit, em 2002): a experiência de navegar, inédita pra mim; as pessoas; os bichos; as estrelas; até o desconforto; peças de um todo perfeito!

Mas, dizem que nada é perfeito...


Dois tataranetos dos tentilhões de Darwin, nas ilhas Genovesa e Isabela

por C. Maria


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VULCÃO COTOPAXI - Pescoço da Lua

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

VULCÃO COTOPAXI – Pescoço da Lua



Muitas fotos que vi da cidade de Quito mostravam um vulcão nevado ao fundo. Suspiro. Acho que poucas imagens tem tanto poder sobre mim quanto um belo pico nevado.
Aprendi que o vulcão em questão é o Cotopaxi, um dos vulcões ativos mais altos do mundo, com 5.897 metros, localizado a apenas 60 km de Quito. Mas, desde que cheguei à cidade, não consegui vê-lo. Onde estava ele? Será que as fotos eram mentira? Será que eu estava olhando na direção errada? Afinal, pra onde olhar??!! Mesmo do mirador de Itchimbia não consegui avistá-lo, por mais que procurasse, o que causou certa frustração.
No hostal, outras hóspedes se juntaram e marcaram de ir à Feira Indígena de Otavalo na manhã seguinte, um sábado, e me convidaram. Na verdade, apesar de Otavalo estar em meus planos e sábado ser o dia da Feira (único sábado que eu passaria no Equador), minha prioridade absoluta era ir ao Cotopaxi. Decidi então que, caso fizesse bom tempo de manhã, eu iria para o vulcão; caso contrário, iria com as meninas.

Amanheceu de sol: Cotopaxi!

A Alícia rabiscou pra mim algumas instruções de como chegar lá por conta própria: tomar um táxi (ou o trole C4, caso eu quisesse uma aventura) até o Terminal Rodoviário Quitumbe (sul), tomar um ônibus para Latacunga e pedir ao motorista para me deixar na entrada do Parque Nacional Cotopaxi e, na entrada do parque, contratar um guia para me levar até o refúgio do vulcão. Tudo muito simples, muy fácil. Nada como a docilidade do viajante; sejamos francos, a gente quer ser convencido.

E lá fui eu de táxi até Quitumbe ($7), um terminal rodoviário claro e bonito. Os guichês de passagens ficam no andar superior e de longe vemos as placas “Latacunga”. Comprei meu bilhete ($1,50) para o ônibus que sairia dentro dos próximos 10 minutos. Desci para o embarque, passei a roleta e facilmente a gente vê os números das plataformas. Os ônibus não são dos melhores, mas seria menos de 1h até o parque e, vamos e venhamos, quem se importa? Sentei na poltrona da janela, para poder ver a tão aguardada Avenida dos Vulcões. Dentro de pouco tempo já pude ver o vulcão ao longe!
De vez em quando o ônibus para pra pegar passageiros e ambulantes. Vende-se de tudo, batatinha frita, espetinhos de salsicha desembrulhados (!), balas, pirulitos, cds, e teve um ambulante que foi um verdadeiro performer, contando piadas e fazendo gracinhas; e ele devia ser bom, pois o pessoal estava rindo bastante.
Viajar pela Avenida em ônibus pode não ser a melhor opção, uma vez que somente temos a visão do lado que escolhemos para sentar. Depois de um tempo de viagem, o Cotopaxi passou a fazer parte da paisagem, o que foi bem legal, apesar da tensão, pois o tempo foi fechando à medida que a manhã avançava.

Após uns 40 minutos, o cobrador fez sinal que estava chegando a hora de descer; graças a Deus, pois já estava me perguntando se ele tinha me esquecido. Desci na rodovia, sozinha, na beira da estrada mesmo. Não tem nenhuma estrutura, uma cobertinha com um banquinho, nada, o que me surpreendeu bastante, uma vez que o Cotopaxi é um dos destinos mais cotados por quem tem uns dias em Quito. Atravessei a rodovia e, na outra margem, havia umas caminhonetes estacionadas. Fiquei meio tensa, mas ao mesmo tempo tranquila, porque o que estava vendo batia exatamente com o que a Alícia havia descrito. Nessa hora, estar sozinha foi chato. Imaginei que as pessoas das caminhonetes eram os guias à disposição e fui me aproximando, sem graça. Um deles se adiantou pra falar comigo e eu perguntei pelo serviço. Eles de fato eram os guias e o preço era $40 dólares. Como foi o mesmo preço que a Alícia havia dito, aceitei no ato, entramos na caminhonete e fomos parque adentro. Ao passar pela portaria do parque assinamos um papel onde informamos nossos dados e quantos somos na caminhonete.

O parque é imenso e as estradas dentro dele estavam passando por obras de pavimentação para contenção de deslizamentos. E, lá em cima, o vulcão com o pico encoberto... O guia, Francisco, informou que para subirmos até o refúgio teríamos de dar a volta no vulcão e que do outro lado o pico estaria visível. Hum. Não apenas queremos ser convencidos - queremos crer.

Ao percorrermos o caminho, avistei um pontinho amarelo no vulcão. É o refúgio, disse Francisco. Duvidei silenciosamente de que chegaria mesmo lá, naquela reação bastante comum de achar que o que está visualmente tão distante é inalcançável. E fomos andando. Segundo Francisco, há cavalos selvagens pelo parque que, infelizmente, não vimos. Passamos por um lago onde um pessoal estava acampado. E fomos subindo. O tempo todo fui me observando pra ver se sentia algum incômodo ou dor de cabeça por causa da altitude. Nada.


O que é um pontinho amarelo na encosta de um vulcão?

O parque já fica a 3.500 metros. No estacionamento já estamos a 4.500 metros de altitude, faltando 300 metros para chegarmos até o refúgio. Descemos da caminhonete, tiramos algumas fotos e fomos subindo. Francisco me ensinou a inspirar pela boca, reter o ar nos pulmões e expirar pelo nariz, como forma de absorver mais ar. Outro conselho foi de subir devagar, sem forçar o passo, e observar o surgimento de dor de cabeça. Estava um pouco frio, portanto, coloquei um gorro e um cachecol. Fomos subindo. O chão é de areia fofa! Nunca havia imaginado... O esforço da subida nos faz sentir calor e tirei o cachecol.


Areia fofa

Chegar à metade do caminho merece comemoração e fotos!

O guia Francisco e eu, na metade do caminho

A segunda parte exige mais. Lá está o refúgio, amarelinho, uma casinha perfeita. Ele é totalmente indiferente ao nosso esforço, apenas está lá, amarelo. Caminho 5 passos e tenho de sentar. Respiro, admiro a paisagem, olho as outras pessoas subindo também. Tem um pai com uma menina nos ombros! Levanto e continuo, mais uns 8 passos; sento de novo. E assim vou.

 

Admirar a paisagem favorece a recuperação do fôlego

Francisco já me acompanhou o bastante e resolveu seguir em seu ritmo. Já chegou lá em cima, me olha de lá, dá uma volta pelo local. Passo a detestar aquela casinha amarela! Observo chocada uma turma de alpinistas que sobem preparados para tentarem o cume naquela madrugada (quem vai até o cume parte meia-noite, numa escalada de umas 5 a 6h). Tem doido pra tudo, penso. Respiro fundo mais uma vez e, numa arrancada final, chego ao refúgio. Francisco celebra por mim, oferece pra tirar minha foto na placa. Estamos a 4.810 metros de altitude! Levei 47 minutos do estacionamento até aquela placa, me mostra Francisco em seu relógio.



Outra dessa, só se for no Everest. E olhe lá...

Entramos no refúgio, divido meu lanche com Francisco, biscoitos e suco, dou uma volta pelo local que cheira a vapor de comida. Me sentindo mais descansada, subo umas pedras e dali vejo a neve.


Eu e a neve

Chega, né. Chamo Francisco para descermos e, coisa engraçada, o tempo vira de repente. Assim, em questão de minuto. O tempo fecha, começa um vento muito frio, incrivelmente frio, que rapidamente gela meus dedos. Descemos rapidamente, afundando os pés na areia, que agora colabora. Meus dedos estão gelados, começam a queimar. Flocos de neve começam a cair. Chegamos ao estacionamento, entro correndo na caminhonete, sento sobre as mãos, mas não adianta. Enrolo o cachecol nas mãos, nada. Até que Francisco liga o aquecimento do carro e me manda colocar as mãos nos bocais. Demora alguns minutos, mas, finalmente, meus dedos começam a esquentar. Depois começam a formigar. Até chegar de volta ao hostal, já estarão normais, mas foi o suficiente pra me assustar. E a virada do tempo na montanha é algo absurdo. Lembrei de ter lido sobre isso no “No ar rarefeito”, do Krakauer, mas é difícil entender até sentirmos, literalmente, na pele. Conselho: leve luvas.

Na volta o Francisco foi me mostrando outros vulcões, dos quais somente recordo o Illiniza. Agora era ir até a rodovia e pegar algum ônibus para Quitumbe. Qualquer um serve. Francisco me ajuda a conseguir parar um ônibus. Enquanto esperamos, vimos o trem que faz a Avenida dos Vulcões passando, apenas uma locomotiva pequena.

Cansei, viu.
Morrendo de pena dos alpinistas que passariam a noite no Cotopaxi, dormi feliz e satisfeita, pelo que havia feito, missão cumprida com louvor!, e pelo que me esperava na manhã seguinte -  Galápagos!


por C. Maria


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quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

QUITO – Centro Histórico


San Francisco de Quito, nome formal da primeira cidade do mundo tombada como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO (em 1978), não me impressionou à primeira vista. Talvez porque estivesse nublado; havia chovido há pouco. Peguei um táxi na saída do aeroporto e fui observando as montanhas, que são muitas, as casas que sobem as encostas. Fui me observando também, para ver se a altitude de uma das mais altas capitais do mundo, a 2.850 metros, iria me causar algum desconforto.
O que impressionou foi o trânsito, agitado e congestionado em um iniciozinho de tarde de quinta-feira. Depois de um tempo, começamos a rodar pelo casario histórico, as ruelas, as lojas de artigos religiosos.
Sorriso interno; adoro uma velharia.

Com o maior e mais bem preservado conjunto histórico da América Latina, nessa primeira estada em Quito (voltaria nos meus últimos dias no Equador) escolhi o Centro Histórico para me hospedar, claro. Me instalei no Hostal Quito Cultural, reservado antecipadamente, um casarão colonial com pátio central, decorado com artesanato local e jardins.  

Nesse primeiro dia, fiz somente uma caminhada de reconhecimento e me recolhi para dormir, cansada da viagem. Nenhum desconforto perceptível por causa da altitude.

No dia seguinte, refeita, conheci alguns hóspedes durante o rico café da manhã. Houve uma troca de informações sobre pontos legais da cidade e zarpei! Visitei:

- Iglesia y Convento de San Agustín, onde estava acontecendo uma missa (gratuito);

- Iglesia de San Francisco, uma das principais de Quito, onde fica a imagem da Virgem de Quito, de Bernardo de Legarda,  também conhecida como a Virgem Dançarina, a Virgem Alada, a Virgem de Legarda ou a Virgem do Apocalípse (gratuito);

- Convento de San Francisco, e seu belíssimo jardim, onde alguns papagaios, periquitos e outros pássaros vivem tranquilamente. Subindo a escadaria, decorada com uma enorme tela, visitamos o órgão da igreja (não sei se se pode entrar no convento sem pagar, pois somente entrei após ter comprado o ingresso para o Museo);

Pátio do Convento de San Francisco

- Museo Fray Pedro Gocial, que funciona dentro do Convento de San Francisco, exibe as mais importantes obras sacras da Escola Quitenha (período colonial, séculos XVI a XIX). Ao entrar no museu, uma música de cantos gregorianos enche o ambiente suavemente e pacifica a alma. Alguns artistas em exibição: Bernardo de Legarda (escultor, autor da famosa Virgem de Quito), Bernardo Rodríguez de la Parra (“El pintor de la luz y el color”), Miguel de Santiago e Manuel de Samaniego y Jaramillo, cujo quadro, “El sueño de Jacob”, considerei o mais lindo pela delicadeza - em tons pastéis, mostrando Jacob a dormir e os anjos descendo e subindo pela escada, conforme relata a passagem bíblica. Há também uma bela mostra com os quadros da série “Vida de la Virgen María”, de autoria desconhecida (entrada paga $2 dólares).

- Iglesia de la Compañia de Jesúsgrandiosa e imperdível, recoberta de folha de ouro, levou 160 anos para ser construída (1605-1765). Logo à entrada, de cada lado vemos os enormes painéis do “Inferno” e do “Juízo Final”, cópias dos originais de 1620. Pude ver obras de restauração acontecendo no interior do edifício (entrada paga $3 dóláres);

- Plaza Grande ou Praça da Independência, coração da cidade, com a Catedral, o Palácio Presidencial, o Palácio Arcebispal e a Prefeitura;

A Plaza Grande. Na escadaria da Catedral, uma das muitas turmas escolares que visitam o local.

- Basílica del Voto Nacional, igreja de torres lindas, adornada com gárgulas inspiradas na fauna do país, como as iguanas e tartarugas de Galápagos. Pode-se subir os cerca de 300 degraus até as torres, passando pelo maquinário dos relógios e pela rosácea. As subidas exigem certa condição física e equilíbrio, pois alguns degraus são desiguais ou muito  estreitos e há somente o corrimão como ajuda. Uma senhora à minha frente desistiu da subida ao pé da escada, evidentemente muito difícil para ela, apesar da insistência do marido, que já estava lá em cima - certas coisas são universais... (subida paga $2 dólares);

 
O maquinário dos relógios da torre da Basílica
  
Uma das escadinhas que levam à torre,
o marido subindo e a senhora que desistiu.

- Parque Itchimbia - oh!uau!que ladeira!!!!! Acrescentar ao roteiro para uma autêntica experiência com os famosos morros de Quito. Algumas ruas terminam em escadarias que continuam subindo vertiginosamente. Algumas escadarias são sem saída, como a que subi por engano (bem que o olhar curioso da criança na esquina me alertou que eu devia estar fazendo algo errado). Tive de descer a escadaria e andar mais um quarteirão até chegar à rua correta que... subia. Indicado por um dos hóspedes do café da manhã, pela vista da cidade. Felizmente, a vista espetacular compensa o esforço (entrada gratuita); 

Fiz questão de registrar a escadaria que subi sem precisão...

- La Ronda, situada morro abaixo :), é a rua boêmia da cidade. Ao final da tarde, os estabelecimentos ainda estavam fechados, mas havia muita gente curtindo os jogos dispostos na rua, como amarelinha, totó e outros. Revitalizada desde 2004, a rua hoje é um ponto recomendado por quase todos os equatorianos e não equatorianos com quem conversei em Quito. Segundo eles, é lá que acontece a melhor noite da cidade, não em Mariscal;

La Ronda, ao final da tarde, ainda com os estabelecimentos fechados

- Achei que ia descansar, mas a proprietária do Hostal, Alícia Vega, uma equatoriana simpaticíssima, avó de uma brasileirinha de Brasília, juntou alguns hóspedes e indicou o espetáculo de danças típicas que acontece todas as sextas-feiras às 19h no Patio Cultural do Palácio Arcebispal (entrada paga $2 dólares).   

O grupo de danças andinas


O centro histórico de Quito deslumbra pela beleza e riqueza do patrimônio; exige fôlego para percorrer suas ladeiras íngremes; encanta pela presença constante da Virgem do Panecillo a nos observar ao longe; nos silencia em suas igrejas repletas de devotos dedicados; acolhe através de sua gente simpática. É um lugar para se voltar muitas outras vezes, para explorar os casarios coloniais que hoje abrigam conjuntos de lojas; subir mais ladeiras; visitar mais miradores; fotografar mais; admirar mais.

O sul da cidade, com o Panecillo ao fundo, visto da torre da Basílica

Um avião sobrevoa o lado norte de Quito rumo ao Mariscal Sucre


DIRETO AO PONTO

- Hospedagem no Centro Histórico: em Quito, normalmente escolhe-se entre o Centro Histórico ou o La Mariscal (Gringolandia, área moderna) para hospedagem. Para quem busca mais autenticidade, o Centro Histórico é o ideal. Aqui é a alma de Quito. É movimentado, apertado em alguns pontos, popular, barulhento, impressionante. Os troles buzinam a cada esquina; há policiais espalhados por todo lado; muitas lojas de lã e artigos religiosos, especialmente lojas de roupas para imagens de santos. 
Perto do hostal há o Café Dios no Muere e o El Cafeto, de onde se aprecia a pacífica vista do pátio do convento de San Agustín.

A Basílica do Voto Nacional vista ao fundo

 - Táxis e outros: os preços já são estabelecidos, não tem taxímetro. Então é bom perguntar antes quanto será a corrida, embora, de todas as que fiz em Quito, as mais caras tenham ficado em $10 (de/até o aeroporto). Costuma-se dar gorjeta, mas $1 (um dólar) já é uma boa quantia mínima (usar a regra dos 10%).
Não usei os ônibus nem o trole (bonde). Li que muitos turistas desaconselham esse meio de transporte, mas a Alícia do Hostal Quito Cultural me indicou tomá-lo, exatamente pra que eu tivesse uma experiência "do caroço". Imagino, então, que não deve ser assim tão perigoso.

- Segurança: andei dois dias com minha mochilinha cruzada na frente do corpo e não tive qualquer problema. Vi muitos policiais nas ruas, mas também vi uma faixa celebrando a diminuição da criminalidade. Ao sairmos à noite para o show de dança, levamos somente o dinheiro contado no bolso. Fomos e voltamos sem problemas. Também não tive problemas com os táxis. O aconselhado é sempre pegar um táxi com o nome da companhia na porta, de preferência os amarelos.

- Best Trips 2013: Quito está na lista da revista National Geographic dos top 20 destinos para se visitar em 2013. A matéria do link está em inglês.

O relógio da Basílica e a Virgem ao fundo

- Sites para pesquisa: Site oficial de Turismo de Quito, Quito Turismo e Quito no TripAdvisor.

- Idioma: é bom saber um básico de espanhol para se comunicar. Alguns funcionários nos albergues, lojas e alguns guias às vezes não falam inglês. O espanhol do Equador é bastante claro, fácil de entender para nós, brasileiros. Ainda assim, é bom se preparar um mínimo.


por C. Maria


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terça-feira, 1 de janeiro de 2013

EQUADOR - Un mismo cielo, 4 mundos distintos


Já fui e já voltei. Pois é. Férias costumam ser ingratas assim; meses de árdua preparação para horas de desfrute que escoam rapidamente. É um investimento de risco cujo retorno vem em forma de lembranças - que somente podemos torcer para que sejam as melhores. No meu caso, o retorno superou em muito o que investi em expectativas.

Essa história de Equador começou com um "chamado" que resolvi atender em 2012. E iria sozinha dessa vez. Tinha 20 dias de férias que marquei para dezembro. Entretanto, desviando da rota traçada, um dia resolvi consultar a agenda de shows do Pearl Jam pelo mundo, e acabei comprando um ingresso para o show do Eddie Vedder em Fort Lauderdale, Flórida, assim, só pra garantir; quem sabe dava pra eu conjugar as coisas. Meu pensamento era que do Equador à Flórida é um pulo... Assim sendo, trabalhei com a ideia de que teria de estar nos EUA dia 01 de dezembro, data do show. A partir daí, foi construir a viagem ao redor dessa data. Após algumas pesquisas de passagens, vi que o mais viável seria deixar o show por último, e alterei as férias para novembro.

Quito, os vulcões Cotopaxi e Chimborazo e Cuenca não poderiam de maneira nenhuma ficar de fora do roteiro. Galápagos também  estava na lista, claro.

Imprimi um mapa do Equador e colei na parede do meu “cubículo” no trabalho, ao lado do calendário. Várias vezes por dia olhava para o mapa e para o calendário e pensava... Foram vários cálculos, pesquisas, cortes, inserções, emails, novos cortes, alterações. Galápagos ganhou destaque, fechei um cruzeiro de 8 dias pelas ilhas, e o Chimborazo, sem caber de jeito nenhum, teve de ser deixado pra uma próxima vez. 

Finalmente, o roteiro ficou assim:

Dia 01: chegada a Quito
Dia 02: Quito
Dia 03: Quito
Dia 04: chegada a Galápagos
Dia 05: Ilha Genovesa
Dia 06: Ilha Bartolomé; Ilha Santiago
Dia 07: Ilha Isabela
Dia 08: Ilha Isabela
Dia 09: Ilha Isabela; Ilha Fernandina
Dia 10: Ilha Santiago; Ilha Rábida
Dia 11: Ilha Mosquera; partida de Galápagos - Cuenca
Dia 12: Cuenca
Dia 13: Cuenca - Quito
Dia 14: Quito
Dia 15: Quito – Fort Lauderdale
Dia 16: Fort Lauderdale
Dia 17: Fort Lauderdale - Eddie Vedder concert
Dia 18: Fort Lauderdale
Dia 19: Fort Lauderdale - BH

Galápagos, apesar de toda a fama, não era o que mais me “chamava” ao Equador; os vulcões é que me impressionavam. E, mesmo com tudo já pago e fechado, eu fiquei muito na dúvida se estava escolhendo certo.

Pobre de mim, que nada sei.



DIRETO AO PONTO

- Não há voos diretos entre Brasil e Quito. Eu optei por uma conexão no Panamá (Copa Airlines), que sai de Belo Horizonte, mas há opção pela Colômbia (Avianca) ou Peru (Taca).
Entretanto, em janeiro/2013 a TAME inaugurou o trecho São Paulo-Guayaquil.

- A moeda do Equador é o dólar americano. Apenas as moedas, cunhadas no Equador, NÃO valem fora do país. Me virei muito bem com alguns dólares (em espécie) trocados, para pagar táxis e pequenas despesas, meu cartão de crédito e um cartão pré-pago Visa, aceito em qualquer estabelecimento que aceita cartões de crédito. Inclusive consegui sacar dinheiro do cartão pré-pago no caixa eletrônico de uma agência do Banco Pichincha sem qualquer cobrança de taxa.  

- Foram de grande ajuda na definição do roteiro os sites Mochileiros.com e o Viaje na Viagem. Consegui encontrar no Mercado Livre uma edição especial da revista Viagem e Turismo, "O Melhor do Equador" Edição 146-C, que foi minha principal referência. 

- Outros sites para pesquisa: Revista Destino 0o, Ministerio de Turismo de Ecuador,  Cámara de Turismo de Galapagos, Parque Nacional Galápagos.   

Painel da cafeteria El Cafetal de Loja, Cuenca

por C. Maria


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